O que o retrato de Marilyn Leibovitz pode dizer sobre a velhice na fotografia contemporânea - por Manu Rigoni

Annie Leibovitz (1949), fotógrafa norte-americana, publicou em seu livro Annie Leibovitz at work (2008)uma imagem com o título My mother (p. 166. Anexo I). Uma fotografia 1x1, provavelmente em um filme médio formato, preto e branco, concebida em Clifton Point, New York, em 1997. A foto segue com a história.

I first photographed my mother in a formal way in 1974, after I had begun working for Rolling Stone. I was visiting my parents at a summer cottage in the Catskills and I asked my mother if she would dance for me. The session was a rite of passage. I was a photographer and she was a dancer. Many years later, when my mother was in her mid-seventies, I photographed her at my place in upstate New York on another summer afternoon. We had set up a chair for her in the shade on the lawn. She was nervous, and when I asked her what was wrong she said she was worried about looking old. She was a strong woman who was accustomed to being in control of situations. It's rare that people expose themselves like that. I have often said that I don't have a favorite picture, although, as time passes, that portrait of my mother means more and more to me. It's probably my favorite picture. It's honest. My mother is looking at me as if the camera were not there.

Na língua inglesa, o velho é traduzido em old. Adjetivo que surge para explicar o que é velho, quem é velho e também o que é familiar, habitual (Infopedia). No português do Brasil, o significado da palavra idoso é sobreposto pelo seu significado cultural. O velho, na língua portuguesa, causa constrangimento e aversão. Por isso, é de “bom tom” que a velha não apareça, que eventualmente apresente-se como idosa - configurada para parecer uma pessoa que se despede da vida de maneira silenciosa.

O retrato de Marilyn, sentada à sombra e enquadrada entre o busto, rosto e cabelo, deixa seus olhos quase na altura do espectador. É para eles que Annie quer que olhemos e, provavelmente, seja uma das justificativas para ser considerada a foto favorita da fotógrafa. Sua mãe está olhando para ela, não para a câmera. A preocupação em parecer velha é efêmera. Existe honestidade e acolhimento na troca, entre mãe e filha, que só a fotografia pôde explicar. Trazer ao centro do quadro, de forma polida, uma pessoa que, outrora dançava diante da câmera esbanjando juventude, é dizer eu te dou importância na velhice também.

“Mudar é a lei da vida. É um certo tipo de mudança que caracteriza o envelhecimento: irreversível e desfavorável - um declínio” (Beauvoir, p. 15). Essa certeza de finitude, joga para escanteio qualquer possibilidade do visível. Cria-se a ausência, a não necessidade de se estar no quadro. A pessoa velha recebe, como que em um rito de passagem, o atestado de sumiço visual. Os registros diminuem, ela mesma se coloca à margem - como se estivesse cumprindo bem o seu papel dentro de uma representação social. Ela sabe que rugas não vendem, não atraem. Pelo contrário: “a velhice dos outros inspira também uma repulsa imediata” (Beauvoir, p. 45).

É desse momento em diante, quando não há mais como esconder as marcas visíveis do processo de existência, que o indivíduo se torna parte de fora, fragmento do que não será visto na fotografia. E estar diante da câmera, ocupando a cadeira de Marilyn, de fotografada e velha, incomoda. Esse incomodo é fruto do isolamento que sucede a inconveniência: somem os elementos impróprios, “ressaltam-se os elementos de privilégio” no visível. (Afonso Junior, p. 167)

“Olhar para as bordas é perceber que, mesmo quando não mostra ou explicita algo, a fotografia ainda é capaz de falar sobre o que não se vê” (Afonso Junior, p. 172). Trago para junto de Marilyn um retrato de família extraído do livro The Family of Man (p. 57), autoria de Carl Mydans (Anexo II). O homem velho aparece à borda, diminuído e quase desaparecendo do quadro. Na linha de seus olhos, uma criança, protagonista da imagem. Os dois atuam quase como opostos, ao mesmo tempo equivalentes. O que se vê e o que não se vê, é o que Simone de Beauvoir admiravelmente escreveu em uma nota de rodapé (p. 47): “a vida seria então um perpétuo retorno da velhice à infância.” 

Susan Sontag, filósofa e companheira de Annie Leibovitz por mais de quatorze anos, escreveu que “o triunfo mais duradouro da fotografia foi sua aptidão para descobrir a beleza no humilde, no inane, no decrépito” (2004, p. 118). Fotografar, segundo a filósofa, é atribuir importância: “algo digno de se ver - e portanto digno de se fotografar” (p. 21).

Dez anos após o retrato feito por Annie, em 2007, aos 84 anos, Marilyn se despediu de sua única filha e da vida terrena. O que faz com que, dezessete anos após o clique feito em Clifton Point, a imagem ainda seja a favorita de Annie Leibovitz (na altura do lançamento do livro, em 2008)? Talvez a identificação emotiva com a fotografada ou a verdade despida, próxima e custosa sobre o envelhecimento. Annie, assim como quem aqui escreve, é uma mulher vivendo na sociedade ocidental do século XXI. A mesma que ainda se comporta como se não tivesse que ficar velha nunca. Talvez não seja apenas aumentar o quadro e trazer para o centro os que estão fora - ou à margem - da fotografia. Mas modificar e questionar os modos de vero queestá na imagem e quem não está nela. Isso é trabalho para o olho por trás do clique, aquele que decide o que valerá a pena ou não ser registrado.

Bibliografia

AFONSO JÚNIOR, José. Instantâneos da fotografia contemporânea. 1. e.d. - Curitiba : Appris, 2021.

BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Tradução de Maria Helena Franco Martins. - 2. e.d. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2018.

INFOPEDIA, 2022. Disponível em <https://www.infopedia.pt/dicionarios/ingles-portugues/old>

Acesso em 27 de maio de 2022.

LEIBOVITZ, Annie. Annie Leibovitz at work. Phaidon Press Limites, 2008.

NEW YORK, The Museum of Art. The family of man. 1983

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Tradução Rubens Figueiredo - São Paulo : Companhia das Letras, 2004.

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