Por uma Fotografia Documental Integral da Família - Giovanna Guiotti

Fotografar a própria família, sua própria intimidade, tornou-se possível no final do séc. XIX, quando a Kodak lançou em 1888 a Kodak 1, a primeira câmera a utilizar filme de rolo, com o objetivo de simplificar o processo fotográfico, possibilitando a democratização da Fotografia. Do slogan “você aperta o botão, nós fazemos o resto” nasceram os fotógrafos amadores, que sem conhecimento técnico, passaram a produzir fotografias brutas, em seu estado natural, de momentos significativos, em oposição às poses sérias e rebuscadas. A fotografia ganha sua independência dos estúdios, restritos a uma abastada classe social, e adentra as casas das famílias. 

O cronista familiar, geralmente a mulher, passou a registrar eventos e momentos selecionados convencionalmente, ou seja, os cliques refletiam as normas sociais e os valores culturais vigentes. Da era Kodak até a presente era digital e a bem-sucedida investida dos smartphones, a fotografia foi se tornando cada vez mais simples, mais portátil,mais acessível e incrivelmente abundante.

Entretanto, o conteúdo da fotografia “caseira” permaneceu intocável e segue manipulado pelo ideal cultural do que deve ser valorizado e preservado. Observando os álbuns de família ao longo do tempo, a impressão que se tem é a de que as primeiras experiências, os aniversários, as datas comemorativas, as viagens, as grandes conquistas são pano de fundo para as transformações na arquitetura, no vestuário, no penteado,no corte de cabelo, no mobiliário, no design e nas cores. Raras eram e continuam sendo as fotos dos momentos diários que carecem de “qualidade fotogênica”. 

Foto: Raquel O'Czerny

Foto: Ana Karla Severo

Foto: Thiago Braga

Foto: Daniella Souza

Esses registros familiares são Fotografia Documental?

 

A julgar pela função referencial original da fotografia documental, cujo objetivo era a reprodução autêntica e realista do mundo na frente da câmera, é plausível considerá-las parcialmente documentais, pois, embora ignorassem grande parte da vida em família, aquela menor parte seletivamente retratada não era fabricada ou encenada para a câmera. 

 

E por que tantos momentos foram e continuam sendo excluidos dos registros fotográficos?

 

Tendemos a repetir o que nos rende palmas e elogios, e a evitar e reprimir o que acaba em críticas e punição. O estilo de aprendizagem social ainda predominante, que nos torna fluentes na leitura dos olhares externos e deficientes na escuta e no reconhecimento de nossa própria voz ( nossos gostos, nossas preferências, nossas vontades), aliado à necessidade humana de aceitação e pertencimento a um grupo, nos transformam em presas das normais sociais e culturais nas quais estamos inseridos.

No Ocidente, a expressão das emoções é a régua usada para medir o valor dos indivíduos. As “negativas” - como raiva, inveja, ciúmes, tristeza, medo, angústia, estresse e vergonha - revelam fraqueza, imaturidade, fracasso e inferioridade, enquanto as positivas -  como o amor, a alegria, o bem-estar, a diversão, o entusiasmo, o ânimo, a motivação e o prazer - atestam força, maturidade, superioridade, elevação, sucesso.

Por seu papel de evocar emoções e recuperar memórias, a fotografia acabou privilegiando apenas uma parte de nós, selecionando momentos eliciadores de sensações agradáveis. Assim, a câmera doméstica se torna míope para a morte, para a doença, para o envelhecimento, para o choro, para o sofrimento, para a queda, para a cara lavada, para a casa desorganizada, para a roupa desalinhada, para a birra e para o cansaço, por exemplo. E como o que é visto é tido como real, quanto mais imagens positivas são publicadas, e negativas deletadas, maior a confirmação de que são o ideal a ser perseguido, gerando uma crescente bola de neve.

Foto: Juliana Pacheco

Foto: Juliana Pacheco

Foto: Manu Rigoni

Foto: Manu Rigoni

Você gostaria de ajudar a derreter essa bola de neve?

 

Já ouviu falar no Paradigma da “mera-exposição”? Ele se refere ao efeito que a exposição repetida de algo altera a maneira como ele é percebido. À primeira vista, um estímulo pode causar repulsa, mas sua contínua exposição acaba despertando curiosidade, gerando familiaridade e, finalmente, mudança de percepção e atitude em relação a ele. Trazendo para a Fotografia Documental de Família, precisamos postar continuamente fotos de momentos culturalmente vistos como negativos, para aumentar suas chances de ganhar os álbuns e para reforçar a importância de uma documentação Integral da Família. 

Foto: Carol Belini

Foto: Manu Rigoni

Foto: Fábio Figueiredo

Foto: Roberto Simões

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